terça-feira, 9 de junho de 2015

AUDITÓRIO LOTADO NO LANÇAMENTO DO LIVRO "O GOLPE DA REFORMA AGRÁRIA"

Parceria feliz no dia do lançamento do livro de Gert Schinke, quando este e João Vicente Goulart falaram respectivamente sobre a reforma agrária em Santa Catarina nos anos da ditadura militar, que foi uma enorme farsa e a reforma agrária de Jango  implodida no golpe de 64. O lançamento do livro pela Editora Insular, foi um sucesso com auditório do CFH- UFSC lotado.

Confira as fotos!




Rolim, da editora Insular




As palestras de Gert e de João Vicente


No dia seguinte ao lançamento, "O Golpe da Reforma Agrária" foi protocolado no Ministério Público Federal como denúncia a ser investigada.




Com direito a esquete teatral que descontraiu o ambiente






 Auditório cheio



Sessão de autógrafos














segunda-feira, 1 de junho de 2015

'O GOLPE DA REFORMA AGRÁRIA'


EVENTO DE APRESENTAÇÃO E LANÇAMENTO DO LIVRO
DATA: 2 DE JUNHO – TERÇA-FEIRA, ÀS 19h
LOCAL: AUDITÓRIO DO CFH DA UFSC
- COM PALESTRA DE JOÃO VICENTE GOULART, FILHO DE JOÃO GOULART, SOBRE A CONJUNTURA PRÉ-GOLPE E A REFORMA AGRÁRIA DE JANGO
- APRESENTAÇÃO DO LIVRO E SESSÃO DE AUTÓGRAFOS COM GERT SCHINKE

PROMOÇÃO: Editora Insular e CFH-UFSC
APOIO: Comissão de Direitos Humanos da ALESC; Escola do Legislativo da ALESC e Coletivo Catarinense Memória, Verdade, Justiça
SOBRE O LIVRO ‘O GOLPE DA REFORMA AGRÁRIA’:

Ele revela a maior fraude fundiária efetivada sob o manto de uma suposta reforma agrária perpetrada na história do Brasil. Subvertendo totalmente a proposta, mostra como se efetivou uma ANTIRREFORMA AGRÁRIA no Estado de Santa Catarina e uma fraude colossal com terras públicas em Florianópolis, especialmente durante o período da ditadura civil/militar.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

ESTUPEFATO, SURPRESO, DESAPONTADO


Como militante estudantil, lá pelos idos dos anos 70, eu já ouvia falar de Dalmo de Abreu Dallari, renomado jurista, defensor das mais nobres causas humanitárias, democráticas, republicanas, e, na minha concepção à época, também socialistas. Entre nós era um ícone da esquerda brasileira, da geração do recém falecido Plínio de Arruda Sampaio. Mas o mundo nos apresenta surpresas e a história inusitados caprichos.

Eu o conheci pessoalmente em uma oportunidade que nos colocaria como parceiros em um grande evento político/cultural, em meados de 1989, quando da realização do Encontro Latino-Americano de Educação Popular, em Passo Fundo, importante pólo regional cravado no Planalto gaúcho. Ele, convidado para palestrar sobre questões relacionadas a direito no campo da educação popular, na esteira de Paulo Freire, pauta obrigatória para todo aquele que se apresentava ‘de esquerda’ à época, e eu convidado para palestrar sobre minha experiência na Primeira Brigada Internacionalista Brasileira para a Colheita de Café na Nicarágua, da qual havia participado em 1986. No evento em Passo Fundo eu deveria focar-me nas questões que eu havia vivenciado no campo da educação popular levada a cabo pelos sandinistas. Na época do evento eu já exercia o cargo de vereador em Porto Alegre, recém eleito que fui sob as bandeiras ecológicas, e a oportunidade mostrou-se ótima para que eu fizesse a ponte entre questões ecológicas, internacionalismo proletário e questões ligadas à produção, tema caro aos sandinistas que viviam sob o cerco econômico e militar dos americanos. A escassez de quase tudo suscitava enorme criatividade no povo nicaragüense e despertava um palpável senso de ‘valor de uso ecológico’ das coisas, o que eu sempre entendi como muito bom na linha do anti-consumismo, princípio caro para todos os ecossocialistas.

Um fato inusitado, porém, me traz sempre a viva lembrança da companhia de Dalmo Dallari, então entre nós simplesmente ‘o Dallari’. A viagem entre Porto Alegre e Passo Fundo foi bancada pela organização do evento e contou com a cessão de ‘uma Brasília com motorista’ por parte da Prefeitura da cidade. Para nosso total desespero, o tal motorista, funcionário da Prefeitura, fazia pela primeira vez na vida uma viagem para fora de Passo Fundo, numa BR movimentada e ainda por cima, entrando noite adentro ao final da viagem. Em determinado trecho sinuoso na serra gaúcha, altamente perigoso, quase trombamos de frente com um enorme caminhão surgido em meio a denso nevoeiro, coisa de filme de terror, momento em que, tanto eu quanto o Dallari quase sofremos um enfarte dentro da ‘nobre Brasília’. E o motorista quase desmaiou. Depois de nos recompormos emocionalmente à beira da estrada, ‘por precaução’ seguimos viagem ao ritmo de 50km/h, proibido que estava de entregar o volante a outra pessoa. Momentos assim a gente jamais esquece e ainda hoje me lembro de parte dos diálogos que tivemos após o episódio e ao longo daquela viagem.

Porém, assim como o Plínio que nos deixou o ‘Plininho’, o Dallari nos deixou o Pedro, renomado advogado e atualmente Presidente da Comissão Nacional da Verdade. Na época, vereador de São Paulo, eleito na mesma eleição na qual também me elegi. Ainda em janeiro de 1989, logo no início dos nossos mandatos, ele me recebeu carinhosamente em São Paulo como anfitrião para um ‘giro por dentro do governo Erundina’, a qual me recebeu em seu gabinete com todas as honras, beijicos e paparicos. Esperanças, delírios, inesquecíveis lembranças... De uma época em que o PT prometia transformar a sociedade brasileira, mudar a forma de fazer política, reformar o Estado, acabar com a miséria, taxar as fortunas e... Para alívio da minha consciência deixei o PT em 1991 ‘de mala e cuia’, atitude da qual jamais me arrependi e da qual muito me orgulho em face ao rumo que o partido tomou a partir de então.

Disso tudo, advém, pois, a razão do meu enorme desapontamento com a posição externada por Dalmo Dallari em seu artigo que leva o título ‘Juridicamente Adequado’, publicado no caderno Aliás, do jornal O Estado de São Paulo, na edição do domingo 26.07.14. Tamanho foi meu choque e desapontamento, que fui conferir se o autor era realmente o personagem com o qual havia vivenciado e ‘epopéia de Passo Fundo’. Em seu artigo, que reproduzo abaixo, Dallari não somente refuta os argumentos de inúmeras manifestações de protesto contra a série de prisões arbitrárias e ilegais efetuadas pela repressão no Rio de Janeiro e em São Paulo, como também, isto é o pior, as defende como ‘adequadas’, sob o argumento de ‘contribuir para dar segurança à comunidade e para a garantia do exercício dos direitos fundamentais da cidadania’, o que me parece uma evidente contradição. Perdeu, estou convencido, totalmente o rumo. Então vejamos.

Num ‘estado democrático de direito’, a liberdade de expressão é garantida pela Constituição e se eu, por exemplo, confesso ser um socialista, trata-se de um direito inalienável que tenho, assim como praticar qualquer credo religioso ou idiossincrasia pessoal, desde que não promova morte, racismo ou outros tipos de discriminações a terceiros, o que não se enquadra em nenhum dos casos das pessoas que foram presas. Ora, a polícia prendeu as pessoas antes de praticar atos, inferindo que elas certamente os praticariam. Assim, inaugurou-se ‘a era dos ‘videntes’ na repressão político/policial, uma novidade só imaginável nos dias atuais no Brasil, onde o ‘jeitinho’ avançou sobre a esfera jurídica, da segurança pública e impregna, de resto, todo aparato do Estado.

Inverte-se a lógica do crime: a ele é imputada uma pena antes mesmo de ser cometido, lógica única no mundo, de singular criatividade, mas que de ingênua nada tem. Trata-se de um recurso/discurso jurídico ‘conceitualmente calibrado’ para avançar sobre direitos civis conquistados duramente depois da ditadura cívico/militar e que, pouco a pouco, e de mansinho, corrói essas conquistas. Este processo em curso eu avalio em um texto que intitulei ‘Pouco a pouco, e de mansinho, a ditadura se insinua’. O ‘recado’ é bem simples: intimidar as pessoas para que não façam protestos de rua. E isso se dá em um momento em que milhares saem às ruas exigindo casa própria, terra para arar, mobilidade decente, dentre outras coisas. Acuada fica a elite nacional. E internacional. Em ‘patropi’ quem conduz magistralmente a orquestra das elites acuadas é o PT.

Para mim, é profunda a tristeza em verificar que, ao contrário do companheiro Plínio de Arruda Sampaio, sempre coerente e fiel aos princípios socialistas e libertários até a sua morte na velhice (à sua moda e estilo, é claro), Dalmo de Abreu Dallari comete um ‘crime de lesa-justiça’ e absoluta incoerência política, que colide com sua história de luta em defesa da cidadania e dos direitos humanos. Se me convidassem hoje para viajar com ele novamente para Passo Fundo, não aceitaria de jeito algum. Como disse lá no início, a história tem seus caprichos e nos reserva cada surpresa... Tristezas e decepções também.

Gert Schinke, em Floripa-Gotham-City, agosto de 2014

Juridicamente adequado

DALMO DE ABREU DALLARI - O ESTADO DE S. PAULO, 26 de Julho de 2014

Violência nas manifestações justifica a decretação de prisões preventivas que garantam o próprio exercício da cidadania

Direito de defesa. Na quinta, um habeas corpus liberou a ativista Sininho


Prisões preventivas de ativistas decretadas por um juiz de uma vara criminal do Rio de Janeiro despertaram reações indignadas, com acusações ao magistrado de agir arbitrariamente, ofendendo o direito de livre manifestação que é assegurado na Constituição. Entre as reações houve a publicação de um manifesto assinado por vários deputados, afirmando que “foram prisões cautelares destinadas a reprimir delitos imaginários forjados pelos aparatos da repressão governamental”. E ressaltam que essa decisão do magistrado agrediu o Estado democrático de direito, ofendendo o direito à liberdade individual. Em outro documento de protesto foi dito que “a prisão dos ativistas foi uma grave violação dos direitos e liberdades democráticas”, concluindo que “os direitos de reunião e livre manifestação são conquistas legítimas do povo brasileiro”, motivo pelo qual a prisão dos ativistas deve ser repelida por todos os que defendem a democracia e a liberdade de manifestação.

Na justificativa de sua decisão, o magistrado em questão afirmou haver sérios indícios de estar sendo planejada a realização de atos de extrema violência para os próximos dias, a fim de aproveitar a visibilidade criada em decorrência da cobertura dos eventos da Copa do Mundo de futebol, “sendo necessária a atuação policial para impedir a consumação desse objetivo e também para identificar os demais integrantes da associação”. A Ordem dos Advogados do Brasil, seção do Rio de Janeiro, também se manifestou contra a decisão judicial determinando a prisão preventiva dos ativistas, dizendo que foi “fundada em previsões” ou baseada em suposições, sem nenhum suporte fático.

E houve o recurso a uma tentativa de suscitar um escândalo internacional, com a pretensão de uma ativista, que tinha prisão preventiva decretada pelo juiz criminal, de obter asilo no Uruguai, indo ao consulado desse país no Rio de Janeiro e alegando estar ameaçada de prisão na condição de presa política. Como era mais do que óbvio, o asilo foi negado, por absoluta falta de justificativa, ficando desmascarada a ousada e descabida tentativa. Fundamentando a negativa, a autoridade uruguaia assinalou que o Brasil é um Estado democrático, onde as instituições jurídicas funcionam plenamente e qualquer pessoa que se considere prejudicada em seus direitos poderá pedir e obter proteção judicial. 

Quanto a esses fatos e à decretação de prisão preventiva pelo juiz criminal do Rio de Janeiro, é oportuno lembrar que nos últimos tempos se desencadeou no Brasil uma onda de ativismo, sob os mais diferentes pretextos. A sucessão de manifestações que, pacíficas no início, descambaram para extremos de violência, com a interrupção do tráfego em vias de grande circulação, a danificação de bens públicos e privados e outras ações ofensivas a direitos fundamentais da cidadania, tudo isso justifica e mesmo recomenda a adoção de medidas preventivas em defesa dos direitos dos cidadãos e de toda a sociedade.

No caso do Rio de Janeiro, uma decisão de eminente integrante do tribunal de Justiça daquele Estado, em processo de habeas corpus, acaba de determinar a soltura de grande número dos presos, para que exerçam na plenitude seu direito de defesa. Mas eles continuarão sendo réus no processo criminal e na decisão de soltura foi estabelecida uma série de restrições, visando, justamente, a assegurar o prosseguimento da apuração de responsabilidades e, quando for o caso, à punição dos que tiverem praticado algum ato definido em lei como crime. Esse é o caminho juridicamente adequado que atende aos direitos da cidadania: a utilização da via judicial para apuração dos fatos e, caracterizando-se a prática de crime, a identificação dos responsáveis, para sua punição legal, assegurando-se aos acusados a plenitude do direito de defesa.

Certamente, a certeza da possibilidade de responsabilização jurídica e da conseqüente imposição de penalidades deverá influir para a contenção dos excessos dos ativistas e contribuirá para dar segurança à comunidade e para a garantia do exercício dos direitos fundamentais da cidadania. O Brasil é um Estado democrático de direito e tem uma Constituição com plena vigência, incluindo um Poder Judiciário independente para dar efetividade à proteção e garantia dos direitos. 

*Dalmo de Abreu Dallari é jurista e professor emérito da Faculdade de Direito da USP



Exército brasileiro cria órgão para monitorar manifestações
TÂNIA MONTEIRO - O ESTADO DE S. PAULO, 31 Julho 2014

Nova organização deverá captar informações de movimentos sociais; segundo oficiais, não haverá infiltração de agentes militares
Qualquer tipo de movimento social, de black blocs a trabalhadores sem-teto, poderá ser objeto de acompanhamento pelo Exército

BRASÍLIA - Cada vez mais acionado para apoiar ações de segurança pública, o Exército criou um órgão para captar informações e monitorar movimentos sociais com potencial para prejudicar o deslocamento e atuação de tropas federais convocadas para conter distúrbios e que atuam na vigilância de áreas pacificadas. A nova 4.ª subchefia do Comando de Operações Terrestres (COTER) receberá dados de todos os órgãos que integram o Sistema de Inteligência do País (Sisbin). Todo o trabalho, de acordo com o Exército, é preventivo e permite que a Força chegue ao local para atuar, munida de dados que permitam ter completo “levantamento de consciência situacional”. Nos bastidores, oficiais dizem que não haverá infiltração de agentes militares nos movimentos. Qualquer tipo de movimento social, de black blocs a trabalhadores sem-teto, pode ser objeto de acompanhamento pelo Exército, caso seja enquadrado entre os segmentos que podem prejudicar a execução de uma missão de Garantia da Lei e da Ordem (GLO).

Os métodos de atuação de vários desses movimentos usam táticas similares a guerrilhas urbanas e rurais e há suspeitas de que alguns deles tenham ligação com organizações criminosas das grandes capitais. A subchefia do Comando de Operações Terrestres será abastecida pelos diversos órgãos de inteligência, como o Centro de Inteligência do Exército (CIE), a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), a Polícia Federal, além dos órgãos de informações dos Estados, entre outros. Até o final do ano passado, este trabalho era realizado por um órgão de assessoramento ligado diretamente ao Comandante do Exército. Com as seguidas e crescentes convocações das Forças Armadas para atuar em áreas urbanas em todo o País, o Exército resolveu criar este órgão que, além de juntar e destacar as informações de inteligência de interesse da operação em curso, reúne dados de guerra eletrônica, defesa cibernética, comunicação social e operações psicológicas. Hoje, as Forças Armadas estão patrulhando o Complexo da Maré, no Rio, a pedido do governo do Estado. Havia possibilidade de os militares do Exército serem empregados também para conter distúrbios que poderiam ocorrer durante a final da Copa, como estava sendo previsto, mas a operação foi abortada graças ao trabalho de inteligência e prisão preventiva dos integrantes dos movimentos. 


Prevenção. Para as Forças Armadas, segundo informações obtidas pelo Estado, não foi surpresa o grande número de manifestações na Copa das Confederações, no ano passado. O que os militares não tinham dimensão era do tamanho do movimento e o quão violento seria. O Exército defende a necessidade de se prevenir com informações sobre os movimentos para que não sejam pegos desprevenidos. Um dos objetivos é evitar que, caso a Força seja acionada, possa atuar proporcionalmente ao que encontrará, para evitar qualquer tipo de dano colateral contra sua própria gente. Por exemplo, em caso de ação para garantir a lei e a ordem, de um determinado tipo de movimento, o Exército precisa conhecer o seu líder, para isolá-lo, e precisa conhecer o material que está sendo usado com as táticas de atuação.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

POUCO A POUCO, E DE MANSINHO, A DITADURA SE INSINUA


É inacreditável que, sob a égide daquilo que chamamos de ‘estado democrático de direito’, aconteçam os fatos recentes no Rio de Janeiro, com ‘prisões preventivas’ a pessoas que supostamente iriam se manifestar em algum protesto público.

O ‘estado policial’ é um evidente retrocesso na direção de uma ditadura !!!

Do episódio, que não é isolado, depreende-se o evidente conluio entre autoridades policiais e do Judiciário, onde as primeiras mapeiam e indicam os alvos, e no âmbito do segundo se dá mero despacho para as prisões arbitrárias. Elas derrubam a tese da vigência plena dos direitos humanos, como o de livre locomoção, de manifestação, de opinião, e, de resto, as liberdades democráticas pelas quais tanto se lutou nas últimas décadas no país e pelas quais tanta gente morreu.

Mas a repressão não se abate somente por sobre pessoas que supostamente iriam protestar. O Estado brasileiro em seu conjunto, e salvo raras exceções, aplica a lei de forma seletiva, por via da imposição discricionária por parte do grupo que se encontra no poder sobre todo aquele que considera seu ‘inimigo político’. Na outra mão, deixa de aplicar a lei aos seus ‘amigos’ – pessoas ou grupos de interesse mais afinados com seus objetivos políticos, apoiadores de campanhas eleitorais... E a trilha em direção à ditadura não se restringe às penalizações e perseguições a manifestantes. Ela caminha também pela impunidade e total falta de isonomia, face ao tratamento diferenciado dado a figurões e empresários, entre outros setores das elites.

Um bom exemplo desse comportamento por parte de autoridades públicas nos mostra um caso bem recente de terrível agressão ao meio ambiente em Floripa-Gotham-City. Todo santo ano (há mais de 20) algum capanga contratado pelas empresas supostamente proprietárias de duas imensas áreas na planície do Pântano do Sul, coloca fogo na vegetação com o propósito de impedir o crescimento da Mata Atlântica e de sua regeneração nas partes onde já foi parcialmente suprimida. Isso é feito em função do interesse de construir na área dois enormes empreendimentos imobiliários que, somados, correspondem ao Loteamento Jurerê Internacional, em termos de superfície e quantidade de gente.

Em janeiro deste ano, novamente um grande incêndio foi provocado na área e o fato gerou grande repercussão, ensejando inúmeras matérias jornalísticas. As autoridades ambientais e policiais proclamaram não conseguir atribuir a autoria do incêndio, embora sabedoras quem sejam os proprietários da área afetada. A pergunta que não quer calar: houve aplicação de multa e outras penalidades aos proprietários da área onde se deu o incêndio? Área esta que já foi objeto de várias tentativas de licenciamentos ambientais com vistas aos projetos mencionados, e reiteradamente negados pelos órgãos licenciadores. Até hoje não houve qualquer notícia que tenha havido alguma multa por parte da FLORAM ou da Polícia Ambiental, e isso considerando que o incêndio causou enormes danos à fauna e a flora, como sempre tem causado. Entende-se por que: são ‘amigos’ do grupo que ora está no poder, controlando a máquina pública a serviço dos que lhe são fiéis.


Mas a coisa não para por aí. A FLORAM ignora solenemente uma ‘Recomendação’ do MPF-SC (Recomendação 04/2012), documento que foi enviado formalmente à sua direção e que a alerta, assim como o IPUF e o governo municipal no conjunto, sobre o descumprimento da legislação ambiental na finalização do Plano Diretor. O documento toma como exemplo a área da planície do Pântano do Sul, objeto de uma Informação Técnica (IT 399/2011) do IBAMA, parecer este que conclui pela incolumidade da planície por se tratar de uma APP em seu conjunto, inclusive fazendo menção ao fato de que ela é objeto de uma proposta de criação de um parque natural em tramitação na própria Prefeitura. Ora, a Prefeitura não só passou por cima dessa Recomendação e do parecer técnico que a embasou, como permitiu que a área da planície ficasse com o zoneamento de ‘AUE’ – Área de Urbanização Especial, um ‘jeitinho retórico’ para acolher edificações ou projetos especiais. Essa traquinagem se deu por via da apresentação de uma emenda articulada pela ‘bancada do concreto’ na Câmara Municipal e FOI ACATADA PELA PMF, sem que houvesse veto a ela, embora pedido por parte de inúmeras entidades e movimentos sociais na reta final de votação do PDP e durante a etapa de vetos por parte do prefeito. Incorre, assim, a PMF e, especificamente a FLORAM, em conflito aberto com a legislação ambiental, embora tenha sido alertada oficialmente para tanto. Pode? E nada de mais acontece com a direção da FLORAM, do IPUF, como de resto com qualquer dirigente municipal.  

Outro verdadeiro escândalo em Floripa-Gotham-City é o número de construções erguidas recentemente e que continuam sendo erguidas em áreas de floresta e encostas de altíssima declividade em várias áreas da cidade. Mas em geral não são quaisquer casebres. Trata-se, em sua grande maioria, de grandes residências, coisa para os bolsos das altas classes sociais. A pergunta que se coloca: como podem eles construir mansões em áreas de APP? Em meio à Mata Atlântica, nas encostas íngremes de morros? Em verdade, essa gente tudo pode, pois tem seus malfeitos acobertados pelos órgãos públicos que deveriam evitá-los – são os ‘amigos’, aos quais não se aplica a lei, simples assim. Logo que assumiu, o prefeito declarou com muita pompa que iria contratar quarenta novos fiscais e técnicos para a combalida FLORAM. Em verdade, somente contratou dez técnicos, sendo que para as áreas administrativas do órgão, o que deixa a cidade às moscas quanto à fiscalização ambiental, assim como a estrutura técnica do IPUF continua praticamente a mesma. Para alguns, é claro, para outros nem tanto. Prometeu assim que assumiu, mas depois ‘esqueceu’.

Noves fora: aos pouquinhos, aqui e ali, vai chegando ‘de mansinho’ (baixo porrete e prisões) o estado ditatorial e se esfumaçando o ‘estado de direito’, ainda que em meio a uma profusão de leis que defendam e regulem direitos sociais. Que se aplicam a alguns, enquanto não se aplicam a outros. E, lentamente, se insinua a ditadura no horizonte tal como uma nuvem carregada de tempestade. Sobre alguém ela descarregará sua energia.

E todo esse cenário vigora sob a égide de um governo nacional composto em grande medida por gente que diz ser ‘de esquerda’, e ter sofrido todo tipo de mazela por parte da ditadura cívico-militar nos anos de chumbo. Em atendimento ao badalado ‘padrão FIFA’, fortaleceram as polícias militares estaduais, leia-se os ‘exércitos dos governadores’, como nunca ‘nesse país’, ao injetar mais de R$ 1,4 bilhão em equipamentos sofisticados e treinamento antes e durante a Copa. E a brutal repressão que agora se abate sobre as pessoas ‘presas por antecipação’, se dá justamente com o apoio de todo o up-grade feito no aparato policial, a exemplo dos ‘drones’ fornecidos por Israel que aqui rondam sobre sua cabeça e despedaçam os palestinos. Essa turma, definitivamente, não tem moral para falar em ‘defesa dos direitos humanos’.

Em Floripa-Gotham-City, porém, forjou-se uma peculiaridade mui singular: o PP do imperador e o PT da Ideli, assim como o PSD do Colombo, farão a campanha de Dilma. Como poderão criticar uns aos outros se todos eles estão no mesmo balaio? É tudo flores, só confetes. Em conjunto adotaram a regra: Quem critica alguma coisa vira ‘terrorista’ e não se fala mais nisso.


Gert Schinke – julho de luto no pós Copa de 2014

sexta-feira, 18 de julho de 2014

DEPOIS DO ALÍVIO, O PESADELO!


O ALÍVIO: foi-se a copa do timeco fuleco que foi pro ralo.
O PESADELO: virá a conta para todos pagarem nos próximos anos.

A FIFA exigiu apenas 8 estádios para os jogos, mas o governo brasileiro ofereceu 12, em 'contrapartida'.

Dos quatro estádios que receberam apenas 4 jogos na primeira fase, três foram construídos e um reformado, conforme números oficiais:

ARENA PANTANAL (Cuiabá): R$ 525 mi
ARENA DA BAIXADA (Curitiba): R$ 265 mi
ARENA AMAZÔNIA (Manaus): R$ 604 mi
ARENA DAS DUNAS (Natal): R$ 417 mi

TOTAL: R$ 1.811 MILHÕES = R$ 1,8 Bi

Todos eles receberam dinheiro público por via do BNDES e agora ficarão às moscas.

NOVES FORA: dinheiro público jogado fora, obra do conluio da indústria do futebol com as empreiteiras e os governos. País rico que joga dinheiro fora em estádios, é isso, para lembrar na próxima vez que estiveres na fila do SUS, embora o desperdício foi computado como 'injeção na economia e consequente aumento do PIB'.

Ecos ludopédicos,
Gert Schinke
ET: sem mencionar os demais estádios, parte dos quais também ficará às moscas



terça-feira, 1 de outubro de 2013

PDP EM XEQUE

É preciso resgatar o processo do PDP e seus antecedentes para entender o conflito posto à mesa nesses dias decisivos de outubro. Essa ‘visão de conjunto’ é fundamental para entendermos esse momento pela qual estamos passando no PDP de Florianópolis.

O ‘Movimento Pela Reforma Urbana’, arquitetado nos idos dos anos 80, conseguiu inserir na Constituinte de 88 uma série de dispositivos de planejamento urbano que desencadearam sucessivos processos de normatização, tal como o que confluiu para a discussão e aprovação do Estatuto da Cidade em 2001, treze anos após, fato que já evidencia premeditada procrastinação do processo legislativo quando esta morosidade visa privilegiar determinados setores, como neste caso, o da construção civil e especulação imobiliária, em detrimento da qualidade de vida da população e da natureza.

Ainda que não perfeita, essa lei federal obriga os municípios, especialmente os maiores, a adotar uma série de procedimentos quanto à discussão e aprovação de seus Planos Diretores, entre os quais, a criação de um ‘Núcleo Gestor Municipal do Plano Diretor’, assim como a imposição de que o processo seja ‘participativo’, e cuja atribuição precípua é a de regular todo esse processo. Isso representou um enorme avanço em cima de tudo o que havia anteriormente em termos de planejamento urbano no país, feito intra-muros. Porém, os setores interessados em que esse processo não funcione a contento fazem de tudo para descaracterizá-lo, ferir suas bases conceituais e, pior, ao longo dos últimos anos, bolaram uma série de estratagemas que conformam um ‘jogo de faz-de-conta’, dando um matiz de participação popular apenas para cumprir formalmente o enunciado disposto em lei, quando não ignorando solenemente os ‘núcleos gestores’ constituídos, como foi o caso de Florianópolis, mais uma vez reprisado por via das últimas ações da PMF.

No dia 28 de setembro de 2006 tem-se o registro formal da primeira reunião do Núcleo Gestor Municipal do PDP já constituído, realizada na sede da OAB/SC, há exatos sete anos. Ela, porém, foi precedida por uma série de Reuniões Públicas, entre elas duas realizadas no Teatro Álvaro de Carvalho, em julho e agosto daquele ano, visando discutir a formação do NGM que, inicialmente, ficaria composto por 26 membros apenas. Posteriormente, em votação apertada, venceu a proposta de expandir o colegiado para 39 membros, agregando aos 26 originais, outros 13 representantes dos 12 Distritos da capital, subdividindo o Distrito Centro em duas representações, uma da ilha, outra do continente, dada a sua dimensão territorial e populacional. Essa ‘saudável e democrática expansão’ alteraria a composição dos blocos presentes no NGM, fazendo como que a bancada do governo diminuísse em proporção frente às bancadas das entidades e aquela emanada pelos Distritos. Foi, portanto, uma grande vitória para o movimento popular da cidade. Estávamos no 2º ano do governo Dario Berger que prometia entregar o anteprojeto em no máximo um ano, como ‘grande realização do seu governo’, e sempre tomado como ‘absoluta prioridade’, conforme dizia à época.

A eleição dos representantes distritais desencadeou uma disputa frenética por posições políticas de todos os setores envolvidos no processo, algumas até resultando em conflitos abertos, porém, todas legitimadas por um regramento inquestionavelmente democrático estabelecido pelo próprio Núcleo Gestor Municipal, e que foi implementado equanimente do início ao fim nessa 1ª bateria de 13 Audiências Públicas Distritais pelo IPUF. O processo de participação popular tomou um vulto inesperado até mesmo para as lideranças comunitárias envolvidas à época, por vezes atropeladas pela força da pressão autônoma exercida pelas suas comunidades, quando se deu a 2ª bateria de Audiências Públicas para deliberação das diretrizes emanadas da chamada ‘leitura comunitária’. Com elas, estavam traçadas as linhas gerais que fundamentariam todo o anteprojeto do PDP, colidindo frontalmente com os interesses especulativos e dos setores empresariais da cidade. Acuada politicamente, a Prefeitura optou por ‘esfriar o processo participativo’, suspendendo os trabalhos do NGM ao final de 2008, tomando como argumento/pretexto um documento emanado pela então já formada ‘bancada popular’, grupo de representantes de distritos e algumas entidades dos movimentos sociais da cidade. Efetivou-se, assim, o primeiro golpe na democracia participativa do processo do PDP, o qual continuaria sob o comando burocrático do IPUF na seqüência do 2º governo Dario Berger, reeleito para mais um mandato. Em março de 2010, a ‘revolta do TAC’ selaria o rechaço a malfadada proposta elaborada pela CEPA, empresa argentina contratada pelo IPUF, para estupefação geral.


Por força dos movimentos sociais e bases distritais constituídas nessa primeira fase, fez-se a ‘auto-convocação’ do NGM no início de 2009 e buscou-se, acima de tudo, obrigar a PMF a retomar o processo por via da reconvocação do NGM, operação de resistência popular desgastante e morosa que só obteve êxito em agosto de 2011, já em meio a franco processo de esvaziamento de participação popular. Um dos mais fortes argumentos utilizados pela ‘bancada popular’ e pelos MP’s foi justamente o descumprimento do Estatuto da Cidade, pressão que sob a ameaça de ‘improbidade administrativa’, fez com que Dario Berger reconvocasse formalmente o NGM, colocando à sua frente Rodolfo Pinto da Luz, por ‘ironia do destino’, o atual Secretário de Educação de Cezar Souza Jr.. Mais uma vez, assim como em 2007, Dario prometia que entregaria o anteprojeto e o aprovaria na Câmara Municipal até o final de seu 2º governo e, mais uma vez, o processo foi arrastado por culpa da própria administração que não colocou sua máquina para ultimar o anteprojeto como deveria ser feito e empreender a articulação política para aprová-lo.

Diante do orquestrado ‘jogo de empulhação procrastinadora’, as forças empresariais e o jogo político perverso dos principais atores políticos envolvidos na cidade começaram a atribuir os constantes atrasos do PDP ao Núcleo Gestor Municipal, consolidando a noção da ‘pressa’ para ultimar o processo, um dos argumentos falaciosos que embala o atual discurso de César Souza Jr, segundo ele, urgência esta necessária para ‘o bem da cidade’.

Em clássico rompante midiático, anunciou no dia 25 de abril deste ano a ‘retomada do NGM’, emitindo decreto de reconstituição do mesmo, porém, retirando-lhe a principal atribuição, que é a de normatizar o processo de discussão e deliberação, tornando o NGM mera ‘peça decorativa’ do PDP. 

Ainda no evento de abril, o IPUF anunciava para alguns dias mais a apresentação da primeira minuta do anteprojeto que, pasme, até hoje não se viu disponibilizada em lugar algum.


Desde fins de abril o NGM vive um ‘dilema existencial’, pois não faz idéia se existe ou não existe para as vias de fato e de direito, já que ora é chamado para discutir, ora é ignorado quando discute e decide, como foi o caso da última reunião formal acontecida em 5 de setembro último. Esta reunião deliberou, em votação que apontou 16 votos a favor contra apenas 5 votos contrários (dados à proposta da PMF/IPUF), pela realização de uma bateria de APs Distritais, na esteira do processo vivido em 2007/2008 o qual chancelou, à época, as diretrizes comunitárias e gerais do PDP, processo carregado por enorme grau de participação popular e inquestionável legitimidade.

Na mesma reunião do dia 5, este que redige estas linhas apresentou uma proposta de ‘macro-calendário’, o qual acolheria a bateria das APs Distritais e culminaria o processo deliberativo do anteprojeto em uma Audiência Municipal a ser feita ainda até o final deste ano, contemplando todas as partes que querem ver o processo encerrado o quanto antes e da forma como manda a lei.

A proposta, porém, sequer foi permitido discutir no plenário uma vez que, em gesto antidemocrático e francamente desrespeitoso ao colegiado, o presidente do NGM, Dalmo Vieira, encerrou intempestivamente a reunião bem antes do seu horário regimental, alegando levar ao Prefeito a deliberação recém emanada no colegiado, reprisando, assim, um gesto exatamente igual ao feito por Ildo Rosa (então presidente do NGM) cinco anos atrás, quando este recebeu o documento/proposta da ‘bancada popular’, acima lembrado. O seu modus operandi parece ter ‘feito escola’ na administração municipal.

Mas agora, ao contrário de Dario Berger, que em 2009 suspendeu oficialmente as funções do NGM, Cezar Souza o pôs em uma espécie de ‘limbo’ jurídico, razão do seu dilema existencial, comunicando em uma nota lacônica assinada pelo Presidente do NGM, que, para todos efeitos não foi extinto, eivada de omissões e falsas premissas, a exemplo das que reportei acima, que ‘tem o maior respeito pelo colegiado’, mas que, diante da conjuntura, fará mesmo o que deu na sua telha autoritária. Não é pouco.

Em verdade, pretende entregar o anteprojeto sem passar pela chancela de Audiências Distritais, substituindo-as pelo que chama de ‘oficinas comunitárias’ e culminando o processo em uma só ‘Audiência Geral’, que sequer terá caráter deliberativo como se observa, pois chamada para ocorrer entre 19h e 22h do próximo dia 17 de outubro, logo mais. Dias depois, garante, entregará o texto para a Câmara Municipal, atropelando tudo o que recomenda um processo participativo e que, por esse caráter, pode ser acolhido como legal e legítimo. Arrisca-se, pois, a algum desgaste político que, em seus cálculos, certamente está disposto a enfrentar. Tem, porém, a seu dispor, um quartel de comunicadores, formadores de opinião e entidades vassalas que, segundo seus cálculos, imprimirão força midiática a suas posições tão hegemônica que neutralizará qualquer oposição, ainda que esta seja calcada no simples cumprimento da lei.

O movimento popular da cidade, no entanto, além da cautela que deve ter diante do que apresentará o texto do anteprojeto, deve reivindicar a aplicação da lei sem subterfúgios, sem meias tonalidades, exigindo a prevalência da decisão do NGM tomada em sua última reunião, que é a realização das Audiências Públicas Distritais antes da realização da AP Municipal, além de bem convocadas e organizadas, por pressuposto, conferindo ao NGM a primazia sobre o processo, como manda a lei e por ele havia sido decidido legitimamente em sua última reunião no dia 5.09.

O ‘cálculo político’ de Cezar Souza toma como base a franca desmobilização popular em torno do tema, já que levado aos trancos e barrancos ao longo de penosos sete anos como relatei acima, e computa que, diante de possíveis ‘jus esperniandis’ aqui e acolá, superará o desgaste da crítica a seus atos imperiais pelo cumprimento de sua promessa de campanha, constantemente reiterada – a entregar do anteprojeto do PDP à Câmara até o final deste ano. Misturam-se, com rara nitidez, nesse tumultuado processo, conteúdo e método, ambos irremediavelmente arranhados por culpa de sucessivas administrações municipais que descumpriram o Estatuto da Cidade e quando o fizeram, o fizeram ‘a meia boca’, como mais uma vez se vê agora.

Parece incrível que, depois das imensas mobilizações de junho e julho no país, em prol de mais democracia participativa, transparência e tantas outras reivindicações ‘mais republicanas’, o governo municipal se dê o luxo (ou arrogância) de executar um processo imperial dessa natureza, impondo sua agenda política ao ignorar solenemente o Núcleo Gestor Municipal do PDP. 

Se há uma conclusão que se poderá antecipar de antemão desse tumultuado processo do PDP em Florianópolis, é a de que em realidade somente um setor da cidade saiu dele vitorioso e ganhando política e economicamente: o da construção civil de braço dado com a especulação imobiliária, em detrimento da ampla maioria da população vivendo em meio a congestionamentos torturantes e tropeçando por sobre esgoto a céu aberto.

A você que leu essas linhas peço para ficar antenado nas posições e participar das ações que serão levadas a efeito pela ‘bancada popular’ do NGM que, em linhas gerais, procurarão denunciar o ‘embuste de democracia participativa’ perpetrada pelo governo municipal, ao mesmo tempo reivindicando uma série de questões-chave no texto do anteprojeto que será enviado à Câmara nos próximos dias, a se cumprir esse calendário imposto goela abaixo pela Prefeitura. Depois, porém, na Câmara Municipal, começa outra briga para que não tenhamos extirpado do texto e dos mapas decorrentes, aqueles quesitos que foram objeto da primeira fase do PDP. 

Portanto, meu amigo, se você acha que alguém já ‘ganhou a guerra’, prepare seu espírito, pois isso que estamos vivenciando é apenas mais uma batalha pelo direito à cidade e plena cidadania.

Florianópolis, 30 de setembro de 2013

Gert Schinke
Representante Titular Distrital do Pântano do Sul no NGM-PDP






sábado, 31 de agosto de 2013

AGAPAN RELEMBRA 25 ANOS DA ‘TOMADA DA CHAMINÉ DO GASÔMETRO’



   



Na noite do dia 26 de agosto, um inesquecível evento promovido pela AGAPAN, a primeira entidade ecológica na qual militei a partir de 1975, lembrou na Câmara de Vereadores de Porto Alegre, no mesmo plenário onde exerci o mandato de vereador entre 1989 e 92, aquele que considero ser um dos mais emblemáticos protestos já feitos pelo movimento ecológico brasileiro – a ‘tomada da chaminé da usina do Gasômetro’, no centro de Porto Alegre. A usina com sua imponente chaminé de 124 metros de altura, que resistiu a todas as intempéries e tentativas de remoção, é o ícone da cidade, marca indelével de onde quer que se a aviste, assim como a Estátua da Liberdade o é para Nova Iorque e outras tantas similares mundo afora.


‘Não está morto quem peleia’ foi a tônica subliminar para a velha guarda do movimento ecológico, em especial a que integra a AGAPAN, primeira entidade ecológica do Brasil, que se reuniu festiva e emocionadamente naquela noite, assistindo a um documentário produzido pela TVCOM em memória aos 20 anos do protesto, ocorrido em 2008. 




O vídeo de 25 minutos foi seguido por um interessante debate sobre as conseqüências daquela epopeia, assim como as manifestações recentes, pois teve à mesa, Juliana Costa, uma representante do grupo de jovens que acampou nas imediações da usina, em junho, para impedir a derrubada de dezenas de árvores para efeito de ampliação de uma avenida, na trilha da cultura impositiva de ‘das auto’ sobre qualquer obstáculo que possa lhe atrapalhar o ‘nobre caminho’.

               
Juliana Costa e Gert Schinke



A conseqüência mais festejada por todos é a de que aquela heroica ação/protesto significou a garantia de sobrevivência do Parque Marinha do Brasil, o equivalente ao Central Park de Nova Iorque, fato que dispensa maiores comentários e sobre o incalculável valor que esta área significa para Porto Alegre e toda a região metropolitana, pois a ela também acodem milhares de pessoas nos finais de semana provindas das regiões vizinhas à capital. 

Lembrado como o ‘mentor intelectual’ da ação/protesto de 1988, senti-me extremamente lisonjeado, sendo aquele um momento de grande emoção para mim. 


A par de ter tido a ideia, fui um dos que arregaçou as mangas para arranjar os apetrechos e organizar de forma secreta o ‘comando ecológico’, grupo que tomaria a chaminé e levaria a informação à mídia. 



Nosso propósito, plenamente alcançado naquele dia, mediante um gigantesco e inesperado congestionamento na cidade, foi o de chamar a atenção do povo para a votação de uma ‘emenda de zoneamento urbano’ que justo naquele dia ocorreria na Câmara de Vereadores, com vistas a implantar um mega-projeto imobiliário ao estilo Doha, na orla do Rio Guaíba, eliminando o parque urbano que era previsto para a área. Vale lembrar que a mídia radiofônica foi decisiva para levar em tempo real, as informações da base da chaminé para a população, que via de regra, é alijada desse tipo de debate, conseguindo assim, a repercussão midiática necessária para que nossa ação tivesse sucesso político.
1988- Sem celular, smartphone ou afins, a comunicação entre os manifestantes do topo da chaminé e o pessoal da mídia lá embaixo, era feita através do "interpote"- potes plásticos de maionese contendo bilhetes, que quando atirados lá para baixo eram disputados pelo pessoal das rádios.


Lugar comum entre a ação de 25 anos atrás e o acampamento em defesa das árvores na base da usina, foi a semelhança do tratamento dado pela polícia, como relatado por Juliana Costa do Ocupa Árvore.



Juliana foi uma das que subiu nas árvores da perimetral em junho em frente à Usina do Gasômetro e relatou a ocupação do espaço por 40 dias que foi feito por cerca de 50 jovens acampados (na média diária), mas que foram retirados com brutal truculência numa chuvosa madrugada por parte de mais de 300 policiais fortemente armados e que fizeram todo tipo de humilhação aos mesmos, como destruir todos seus equipamentos e documentos, além de prisão incomunicável por várias horas, em aberta transgressão à lei. Obra de Tarso Genro (PT) e Fortunati (PDT), respectivamente governador e prefeito, sendo que o último compareceu há 25 anos quando era deputado estadual para se solidarizar com nosso movimento da tomada da chaminé. 




Não é ‘bárbara’ essa mutação política? Alguém da platéia também lembrou uma ‘notável coincidência’ no fato de Alceu Collares, então prefeito de Porto Alegre em 1988, e o atual José Fortunati, serem ambos do PDT que, a par do extremo desenvolvimentismo semelhante ao do PT, tem como característica comum o uso da força policial com brutalidade para debelar protestos de ações dos movimentos sociais que ‘atrapalham’ seus projetos. 
Em 1988 os ‘capangas de Collares’ (como era chamada a ‘guarda pretoriana’ que o acompanhava diuturnamente) não só agrediram brutalmente nós manifestantes, como também os jornalistas e a todos que se atravessavam em seu caminho, fazendo do pátio da Câmara de Vereadores na tarde do dia 17.08.88 um palco de escaramuças digno de um bangue-bangue, reprisando as refregas mano a mano entre chimangos e maragatos da revolução gaúcha. Os métodos das elites apenas se repetem, para sarcasmo da história...

O debate que se seguiu aos depoimentos girou, dentre outras coisas, sobre a nossa 'democracia de fachada', falsa por todos os aspectos, onde só leva vantagem aquele que se subordina aos mandos do capital e dos interesses dos políticos que estão no poder, mostrando que, ao invés de a polícia proteger TODOS os cidadãos, ainda que protestem democrática e pacificamente, ela tem lado sim - O DOS PODEROSOS, e não o do povo. Esse cenário ficou evidente em todas as manifestações de junho/julho. Também ficou claro que a repressão se abate com redobrada força sobre aquelas manifestações que colidem frontalmente com os interesses econômicos das elites, em contraposição àquelas que tratam de direitos humanos e de minorias, como os dos movimentos GLTB e em ‘defesa dos animais’, ‘marcha das vadias’ ou ‘marcha da maconha’, que recebem notável ‘tratamento diferenciado’ por parte das polícias, "mais humano" por assim dizer, quando não até mesmo ostensiva ajuda, o que deveria ser para todos, por pressuposto. MAS TUDO MUDA QUANDO O PROTESTO CONFLITUA COM O CAPITAL !!! 



Revendo velhos companheiros de luta ecológica e amigos, além de gente nova no pedaço, aproveitei para lançar a proposta do "Movimento de Refundação Ecológica", algo que se tornou imprescindível diante da agenda e cenário políticos, procurando separar aqueles grupos seriamente engajados na luta ecológica transformadora daqueles que praticam mera maquiagem verde, em franca colaboração com o sistema ecopredatório. Também a ocasião, foi propícia para divulgar meu livro ECOPLAMENTO, onde faço a defesa detalhada do 'movimento de refundação ecológica', conseqüência lógica da minha teoria e detalhado ao final do livro.